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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Muitos dos meus pais que vejo em mim

Será que o Destino é traiçoeiro ou fui eu que me distraí comigo mesma? Quando foi que comecei a ser aquilo que detesto em meus pais? Será que a distância que mantenho deles me fez nostálgica dos seus mais ingratos defeitos? E agora? Quais hábitos poderei mudar?

Foi numa tarde dentro do ônibus, após uma manhã cheia de trabalho, que comecei a compreender o que me faz sofrer tanto. Notei em mim mesma dois dos defeitos que mais abomino naqueles que me deram vida, amor e carinho: tirania e covardia.

Por mais contraditórias que essas duas faces da minha personalidade possam ser, é isto que, em última análise, diagnostiquei em mim.

Da tirania

Quem foi que disse que sou dona da verdade? Quem analisou os mínimos detalhes e concluiu que o meu jeito é o melhor? Quem investigou para saber que meus horários, consumos e hábitos são os mais perfeitos?

Do mais simples café na manhã às escolhas dos amigos, me peguei tentando controlar o meu e o outro. Com que direito? As queixas dos amigos e amores foram várias e inúteis. Porque eu não os escutei a tempo.  Agora tenho que aprender de forma dolorida o que eu deveria ter percebido há anos atrás. Na distração dos meus dias de preocupação, esqueci de enxergar o outro como um indivíduo completo. Na busca da metade da minha laranja, esqueci que metades são tão inteiras quanto eu. E se assim não forem, só o que eu poderia encontrar é o que eu já havia descoberto até então: faltava coerência, atitude, amor, compreensão.

Achei, com a ajuda dos mais sublimes anjos do Pai, aquilo que julgava faltar na minha vida. E faltava. Agora não falta mais: sobra! E quão perfeitas e harmônicas são estas sobras.  Sobras que me ensinam e, até agora, me recusei a aprender.

Habituada a vencer, não percebi que a derrota pode ser mais valiosa do que o pódio mais alto. E permaneci ranzinza, acabrunhada nos meus desgostos. Hoje, aos quase 30, admiro no espelho as rugas e cabelos brancos que surgiram deste meu mau humor crônico. Acumulo inúmeras intemperanças no meu passado, unicamente porque algo não saiu como eu havia planejado.

E quão pesada é a vida deste jeito! A partir de hoje me dispo da tirania.

Da covardia
Quantos passos deixei de dar por medo? Receio do que iam dizer e pensar, medo de ouvir “Não!”. Pois era apenas “não” que eu sabia dizer. E quantos passos errados eu dei, tentando acertar, claro, mas sem pesar as consequências. Sem analisar todos os envolvidos e tomar cuidado com o outro.

Caridade não tem nada a ver com o cuidado com o outro, lembrem-se bem!

Do popular ditado “colocar o carro na frente dos bois”, tirei o mau exemplo e apliquei na minha vida. Um grande “Não” percorria a minha mente qualquer que fosse a indagação. Escondida nas características de precaução do profissional de produção, me acostumei a colocar empecilhos em todas as simples tarefas.

Por medo deixei de falar o que pensava para, no final, tudo virar uma bola de neve intempestiva.

Por medo abusei da confiança no outro, e me deixei humilhar e afetar mais do que um ser humano pode suportar.

Por medo não percorri caminhos em busca do que eu queria, porque o que eu queria “não era para mim”.

Por medo de ficar sozinha, o medo me afastou das pessoas.

A partir de hoje, não há mais espaço para covardia em mim.

Dos muito obrigadas que devo hoje. Um que ficou esquecido, lá atrás. Uma amizade que não soube compreender. Um alerta amigo e carinhoso que resolvi ignorar.
Por outro lado, uma paciente amiga e companheira. Vivida, machucada e atenciosa mulher que me encoraja todos os dias.

A partir de hoje, só tenho amor, amizade, sorrisos, confiança e peito aberto.


Com o coração machucado, assustado e cansado, peço mais um pouco de paciência e compreensão, porque grandes mudanças são dolorosas e difíceis. Porque muito do que eu sinto é vergonha!

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Livia Maia

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